quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

LCM é cultura!!!!!




Trechos extraídos do livro Equador, do português Miguel Souza Tavares:

Um dos personagens do romance, David Jameson, recebe a proposta para assumir como governador do conflituoso e recém definido estado Assam e Bengali Nordeste, na Índia Britânica do início do século XX. Teria que responder de imediato.

Sim ou não?

Não era pergunta que se fizesse a um jogador. Aquilo representava, talvez, uns dez anos de salto na carreira, uma oportunidade única e irrepetível. E os riscos correspondentes, em caso de fiasco. Mas recusar implicava em perder as boas graças do vice-rei, ficar estagnado em Delhi, à espera que vagasse um qualquer posto longínquo de district officer. E, para seu caráter e ambição, era uma decisão que levaria a vida toda a lamentar. Como ele muito bem sabia, há alturas em que só se pode ir a jogo, porque o par de ases na mão pode nunca mais se repetir durante o jogo, mesmo que a experiência lhe tivesse ensinado que o par de ases é uma mão traiçoeira, que raramente sai vencedora. David Jameson respondeu, pois, tão depressa quanto a surpresa lho permitiu:

- Julgo que pode contar comigo, Sir.

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Ao assumir o posto de governador, David Jameson faz uma boa gestão e quando tudo está bem encaminhado ele se enturma com altos figurões.

Essencialmente, o que aquele pequeno grupo – dois ou três ingleses, um reputado comerciante local muçulmano e sete ou oito representantes da alta sociedade local hindu – fazia, naqueles serões na casa do rajá, era beber, fumar, conversar e, sobretudo, jogar. Jogava-se alto e caro, noite afora, ganhando-se e perdendo-se somas consideráveis, sempre com bons modos e com uma aparente indiferença de quem joga para passar o tempo e não para virar a roda do destino. Os jogadores entravam, saíam e reentravam no jogo, na grande mesa octogonal de pôquer, ao sabor dos golpes de sorte ou de azar, ou dos seus palpites. Mas havia sempre, a meio da noite, um intervalo para a ceia, em que todos se retiravam para a sala próxima, para comer e conversar, enquanto os criados limpavam os cinzeiros e a desarrumação da sala de jogo. Depois da ceia, era a altura de cada um decidir se continuava para segunda sessão de jogo ou se ficava por aí – permanecendo à conversa com outro desistente, retirando-se para uma das alcovas interiores com uma escolhida do harém para se consolar da má sorte ou para desmentir o ditado de que não há sorte ao jogo e ao amor, ou simplesmente retirando-se para casa e dando por finda a noite. Mas as regras de cavalheiros estabelecidas entre eles estipulavam que quem começava a primeira sessão de jogo tinha de ir até a ceia, ao menos que estivesse a perder violentamente; e que quem começava a segunda sessão, tinha de ir até o fim. Acima de tudo, a ofensa mortal – e que dava direito a jamais voltar a ser convidado – era entrar em jogo e retirar-se antes de tempo e a ganhar. Porque isso significava que se estava ali para ganhar dinheiro aos amigos e não para passar uma noite civilizada entre cavalheiros.



* Colaboração do nobre confrade Bruno "Marshall"

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