terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Coluna do CAMPEÃO - Com que cartas eu vou?
Como eu já mencionei na primeira coluna, tudo no poker depende de inúmeras situações – aqui coloco algumas que mostram uma linha de raciocínio, mas cada jogador pode adaptar essas ideias ao seu estilo de jogo. Dan Harrington, uma das estrelas do poker mundial e exímio estrategista no pano, defende no seu primeiro volume de “Poker No-Limit Hold'em Cash Games” que o poder de uma mão depende basicamente de um fator: o tamanho dos stacks.
Para Harrington, quanto maior os stacks dos jogadores envolvidos, menor a diferença entre mãos fortes e fracas. Stacks pequenos não possuem tamanho suficiente para cobrir uma longa série de apostas e por isso eles pedem por jogadas decisivas. Se é mais provável que você entre de all-in bem cedo na mão a estratégia, então, é se concentrar nas cartas que têm maior chance de se tornar a melhor mão rapidamente, como é o caso dos pares altos – AA, KK e QQ – e de combinações de cartas altas – AK e, às vezes, AQ suited.
Um exemplo. Suponha que o nosso destemido Índio esteja em um torneio com stack do tamanho de 20 big blinds. Na sua vez de jogar ele resolve abrir o pote para proteger seu par de K. Índio aposta 3 big blinds. Acompanhado por mais um adversário ele resolve apostar o montante do pote no flop – apostas de ambos mais os blinds –, e joga mais 8 big blinds. Com mais um call do adversário o pote já tem cerca de 20 big blinds. O stack do Índio que ficou para trás soma agora 9 big blinds, tornando uma decisão muito difícil ter de largar as cartas frente um all-in adversário, mesmo com um A no bordo. Uma derrota nesta única mão pode custar ao nosso herói a eliminação no torneio.
Mas e se ao invés de 20 big blinds Índio tivesse 120? Com deep stacks tudo muda. Largar o King Kong já não pesa tanto sobre seus ombros, pois ele ainda pode jogar confortavelmente com mais 109 big blinds para trás e esperar uma próxima oportunidade para ganhar fichas. Por isso conectores naipados e pares baixos ganham valor nos cash games. Nessa modalidade do poker as mãos premium costumam ganhar muitos potes pequenos, porém cartas especulativas e imprevisíveis têm o poder de levar o stack inteiro do seu oponente quando acertam o bordo.
Mas atenção LCM poker players, especular não significa jogar com lixo nas mãos. “Botar fé” em Q7 naipado ou T5 na esperança que as cartas do bordo o ajudem é perder dinheiro no longo prazo. David Sklansky, Ed Miller e Mason Malmuth escrevem no livro “Small Stakes Hold'em”: “Não há como pagar raises com KT e esperar ganhar dinheiro no longo prazo”. Em um gráfico apresentado no livro, essa mão tem expectativa de ganhos próxima de zero. Uma vez ou outra pode bater um gigante no flop, mas mãos iniciais medíocres não farão o melhor jogo em uma frequência que compense o custo de jogá-las.
Há muito ainda o que falar sobre seleção de mãos. Fatores como posição na mesa e estilo de jogo dos adversários também contam na avaliação de cartas iniciais. Mas isso já é conversa para posts futuros. Com base no que foi escrito até aqui, relacione a sua mão inicial com o tamanho dos stacks, pense na sua jogada antes mesmo de entrar no flop e analise, caso o bordo se mostre difícil de tornar a sua mão vencedora, se existe uma porta de saída, como um fold que preserve o stack com um tamanho suficiente para continuar no jogo.
Wladimir D'andrade
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Coluna do CAMPEÃO - Sem Medo dos Números!!
Caros confrades, 02 vezes por mês vou tentar passar algumas das principais estratégias de poker que eu aprendi com, até agora, seis livros e alguns artigos em revistas e sites sobre o assunto. Como não sou nenhum expert nesse jogo e não existe verdade absoluta sobre cada mão, a ideia aqui é criar um espaço para o debate. Isso é bom, porque ao final do ano aposto que as terças-feiras da LCM estarão mais disputadas. Portanto, comentem, façam perguntas ou refutem os posts.
Meu objetivo no primeiro texto é acabar com a separação entre a “turma que faz conta” e “os que jogam com fé”. Para isso tenho que passar o básico, a única variável incontestável no poker: as pot odds.
Pot odds é a proporção entre o quanto o jogador aposta e o quanto ele pode obter de retorno com a aposta. O resultado, então, é comparado com o número de cartas que esse jogador precisa para formar a melhor mão. Isso define se certa jogada é ou não lucrativa.
É mais fácil com exemplos.
Digamos que o Vizeirinha esteja no centro de São Paulo e se depara com um colorado de chapéu cartola e dados na mão, que lhe propõe um desafio. Ele diz para o nosso campeão de Aruba rolar um dado – normal, de seis faces – quantas vezes quiser a um preço de R$ 1 por vez. A cada número 6 que aparecer o Vizeirinha recebe R$ 6. Mas se sair qualquer outro é o colorado que fica com o R$ 1. Vizeirinha deve aceitar o desafio?
A chance de sair cada uma das faces do dado é exatamente a mesma. No longo prazo, cada vez que o nosso herói rolar o dado ele vai ganhar uma e perder 5 vezes, relação de 5:1 – podemos dizer que essa contagem mostra quantos são os outs do Vizeirinha. Agora vamos comparar essa relação com o prêmio.
Toda vez que o Vizeirinha perder, ele terá de pagar R$ 1. Toda vez que ganhar, ele recebe R$ 6. As pot odds dele são de 6:1.
Vizeirinha deve aceitar o desafio? Os números dizem que sim. Quando as pot odds são maiores que o número de outs a aposta é lucrativa no longo prazo. Se o nosso herói rolar o dado 1 mil vezes, ele vai ganhar, em média, 16,6%, que neste caso vai lhe dar R$ 1.000. E vai perder em 83,4% das mãos, ou R$ 834. Lucro, portanto, de R$ 166.
Agora vamos levar todo esse raciocínio para uma situação mais prática. Em uma certa sessão de cashgame, vemos o Dilson com uma bolada em fichas e preocupado com o seu surto de mad poker player que sempre, diz ele, toma conta do seu espírito no final da noite. Na posição button, o destemido rapaz olha para as suas duas cartas, A6 naipado (suited) em copas, e dá um call na aposta de R$ 2 do Peixoto, assim como todos os outros quatro jogadores na mesa. O pote, então, vai para o flop com R$ 12. As cartas que viram são K de paus, 10 de copas e 5 de copas.
Dilson tem 9 outs, ou qualquer uma das cartas de copas que estão entre as 47 do baralho ainda não abertas. A chance de ele completar o nuts (o maior jogo possível na mão) é de 38:9, ou aproximadamente 4,2:1. Todo mundo dá check e a carta do turn é um J de ouro.
O Peixoto, então, se sente o Anderson Silva com seu par de anzol e sai atirando R$ 9. Todo mundo foge e o Dilson resolve primeiro calcular as pot odds. Ele tem que cobrir R$ 9 em um pote que tem R$ 21, ou 2,3:1. Resultado que mostra um call não lucrativo.
Porém, se a aposta do Peixoto fosse R$ 3, as pot odds do Dilson seriam de R$ 3 em um pote de R$ 15, ou 5:1, um call fácil. Se o flush bater, Dilson sairá desta noite radiante. Caso o baralho não o ajude, é só ele tirar a ideia de blefar da cabeça, largar a mão e se contentar com uma perda pequena de fichas.
Pronto confrades, vocês estão convidados a entrar no incrível mundo das contas. Se acostumem a fazer o cálculo das pot odds para toda aposta. No final do ano, é bem capaz que o nome de vocês na tabela de resultados apareça ao lado de cifras mais animadoras.
