Uma virtude do bom jogador de poker é saber avaliar com quais cartas vai jogar e quais descartar antes do flop. Essa escolha é um dos fatores primordiais que o levam a ser lucrativo ou deficitário no jogo. Quaisquer duas cartas naipadas são suficientes para entrar no pote? AQ é mão para pagar all-in? Com quais cartas eu devo abrir o pote?
Como eu já mencionei na primeira coluna, tudo no poker depende de inúmeras situações – aqui coloco algumas que mostram uma linha de raciocínio, mas cada jogador pode adaptar essas ideias ao seu estilo de jogo. Dan Harrington, uma das estrelas do poker mundial e exímio estrategista no pano, defende no seu primeiro volume de “Poker No-Limit Hold'em Cash Games” que o poder de uma mão depende basicamente de um fator: o tamanho dos stacks.
Para Harrington, quanto maior os stacks dos jogadores envolvidos, menor a diferença entre mãos fortes e fracas. Stacks pequenos não possuem tamanho suficiente para cobrir uma longa série de apostas e por isso eles pedem por jogadas decisivas. Se é mais provável que você entre de all-in bem cedo na mão a estratégia, então, é se concentrar nas cartas que têm maior chance de se tornar a melhor mão rapidamente, como é o caso dos pares altos – AA, KK e QQ – e de combinações de cartas altas – AK e, às vezes, AQ suited.
Um exemplo. Suponha que o nosso destemido Índio esteja em um torneio com stack do tamanho de 20 big blinds. Na sua vez de jogar ele resolve abrir o pote para proteger seu par de K. Índio aposta 3 big blinds. Acompanhado por mais um adversário ele resolve apostar o montante do pote no flop – apostas de ambos mais os blinds –, e joga mais 8 big blinds. Com mais um call do adversário o pote já tem cerca de 20 big blinds. O stack do Índio que ficou para trás soma agora 9 big blinds, tornando uma decisão muito difícil ter de largar as cartas frente um all-in adversário, mesmo com um A no bordo. Uma derrota nesta única mão pode custar ao nosso herói a eliminação no torneio.
Mas e se ao invés de 20 big blinds Índio tivesse 120? Com deep stacks tudo muda. Largar o King Kong já não pesa tanto sobre seus ombros, pois ele ainda pode jogar confortavelmente com mais 109 big blinds para trás e esperar uma próxima oportunidade para ganhar fichas. Por isso conectores naipados e pares baixos ganham valor nos cash games. Nessa modalidade do poker as mãos premium costumam ganhar muitos potes pequenos, porém cartas especulativas e imprevisíveis têm o poder de levar o stack inteiro do seu oponente quando acertam o bordo.
Mas atenção LCM poker players, especular não significa jogar com lixo nas mãos. “Botar fé” em Q7 naipado ou T5 na esperança que as cartas do bordo o ajudem é perder dinheiro no longo prazo. David Sklansky, Ed Miller e Mason Malmuth escrevem no livro “Small Stakes Hold'em”: “Não há como pagar raises com KT e esperar ganhar dinheiro no longo prazo”. Em um gráfico apresentado no livro, essa mão tem expectativa de ganhos próxima de zero. Uma vez ou outra pode bater um gigante no flop, mas mãos iniciais medíocres não farão o melhor jogo em uma frequência que compense o custo de jogá-las.
Há muito ainda o que falar sobre seleção de mãos. Fatores como posição na mesa e estilo de jogo dos adversários também contam na avaliação de cartas iniciais. Mas isso já é conversa para posts futuros. Com base no que foi escrito até aqui, relacione a sua mão inicial com o tamanho dos stacks, pense na sua jogada antes mesmo de entrar no flop e analise, caso o bordo se mostre difícil de tornar a sua mão vencedora, se existe uma porta de saída, como um fold que preserve o stack com um tamanho suficiente para continuar no jogo.
Wladimir D'andrade
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
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