
Dessa vez as mulheres (e os filhos, em alguns casos) quase acabaram com nosso Póker, mas felizmente tivemos 5 bravos e resistentes guerreiros que garantiram a assiduidade da nossa confraria. A mesa começou cedo, com a presença de Dilson (o glorioso anfitrião), Rodrigo, Bruno e Fernando. Este último já deu a largada com uma sorte impressionante, ganhando as quatro primeiras rodadas da noite: começou com uma trinca de 7, na segunda rodada repetiu a trinca, dessa vez de 10. Na terceira e quarta rodadas ele evoluiu e fez dois Flushes consecutivos, Paus e Ouro, respectivamente. A essa altura Bruno já dizia que tal sorte não poderia seguir por toda a noite. Na quinta e sexta rodada Fernando não foi até o fim, deixando as fichas para Bruno. Mas na recém sétima distribuição de cartas da noite ele retorna com um grande jogo: Full House de Cincos e Setes. Infelizmente tamanha sorte estava na hora errada, e o máximo que ele conseguira tirar de seus colegas, além do pingo, fora R$0,20. Afinal, as primeiras rodadas são as de aquecimento, e o pingo baixo impede um maior delineamento de quem será o vencedor da noite.
Às 21h45 chega o quinto e último confrade da noite, Índio, que estava em casa a cuidar de seu filho pequeno (que também serviu como belo pretexto para chegar à mesa em um momento que as apostas e pingos estivessem mais contundentes). Ele chega, de mãos vazias, com um impressionante bom humor. Logo já pega na geladeira uma cerveja e seu copo clássico. As jogadas seguem e Índio, como sempre, se propõe a narrar. Mas desse vez seu lado “vidente” está mais acentuado, e ele constantemente tenta adivinhar as cartas dos colegas. Na Escondilsinha® ele canta a combinação de cartas de Rodrigo e acerta 50% (se é que isso é possível, já que as cartas são 5). Ele não se contém e logo diz, cheio de orgulho: viu, eu sou um cara que sabe ler a mesa! Dilson imediatamente rebate o comentário: que mesa, cara, se não tem nem mesa pra ler aqui? Mas isso não é o suficiente pra acabar com o bom humor do colega. Por sinal, seu humor só aumenta ao longo da noite. Alguns se perguntam se isso tem mais a ver com os momentos dedicados ao filho, ou com as cervejas que ele segue pegando da geladeira. O jogo continua, e os comentários também. Até que Rodrigo e Índio discordam sobre estilos de apostas. Rodrigo desafia o colega perguntando se alguma vez ele já ouviu a expressão poker face. É claro, responde Índio, resoluto. Rodrigo não se contém com a resposta e indaga: o que quer dizer? Índio, no auge do seu bom humor, expande um sorriso debochado e prontamente responde: cara de poker! Os confrades não se contêm e caem na gargalhada, enquanto Rodrigo, frustrado com o diálogo, resmunga: assim não dá nem pra conversar!
Todos se recompõem e o jogo prossegue. Aos poucos vão se delineando os ganhadores da noite. Fernando, que havia começado com grande sorte, a essa altura já havia dado seu segundo rebuy. Seus colegas relembram das grandes jogadas do início da noite, e agora comentam os jogos pífios que ele tem apresentado. O italiano não se abala e profere mais um de seus ditados: piutost che nient, le meie piutost. Alguns se indignam logo pensando se tratar de um xingamento. Índio se manifesta e passa a palestrar sobre a sonoridade dos italianos, que parecem sempre se agredirem, que as palavras soam como ofensas, mas na verdade estão só conversando amigavelmente. Então todos pedem uma imediata tradução. Fernando incia: piutost che nient, le meie piutost quer dizer… Piutost Che nient é como… não se pode traduzir, é uma expressão que não tem como traduzir. Todos se exaltam, desacreditam, tentam, pedem que repita a expressão em italiano. Ele recomeça: piutost che nient… Fernando empaca novamente. Nesse momento eis que Bruno eleva sua voz grave e altivamente se pronuncia: melhor nada do que coisa nenhuma! Fernando se alivia com a tradução e os outros jogadores aplaudem estupefatos. Dilson complementa: além de um grande resenhista, é um grande tradutor. Bruno Cheuiche não se contém e dispara, do alto de sua humildade: não é à toa que a Liga leva meu nome.
Na primeira chamada, à meia-noite, Rodrigo pronuncia seu interesse em sair, mas é prontamente convencido a respeitar a tradição da Confraria: mais uma rodada, acabando na Escondilsinha®. Ao término desta, Bruno é o grande vencedor da noite, mas esquece o prêmio surpresa, para a alegria do Dilson: um pote com 20 “brigadeiros” de morango.
Já esperando o elevador, Rodrigo recebe uma ligação. Seu filho mais velho aguentara tempo suficiente até acabar o poker, mas agora agoniava de dor no ouvido. Era realmente hora de voltar pra casa e cuidar da família.Antes que Dilson feche a porta, Índio ainda relembra: quem bebeu cerveja não esquece de me pagar!
* Texto criado pelo confrade Bruno Cheuiche Vieira da Cunha
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