terça-feira, 1 de setembro de 2009

Tabela LCM - 25/08/2009






A noite era pra ser na casa do Dilson. Mas dessa vez houve um imprevisto de última hora. Após consultas, trocas de e-mail, telefonemas e especulações diversas entre os confrades ficou decidido que a jogatina seria sediada no BNH.


O horário seria o de sempre, mas dessa vez era visível que iniciaria mais tarde. E conseqüentemente se estenderia até mais tarde. Rodrigo e Índio tinham compromissos paternos. Não chegariam antes das 21h30. Peixoto tinha compromisso profissional. Tampouco chegaria antes das 21h30. Neto fora o último a ser avisado da nova definição, mas já estava se encaminhando ao local. E Fernando, que não raramente chega cedo, dessa vez chegou as 21h15. De mãos vazias. Não beberia essa noite devido a compromissos matinais logo ao alvorecer. Mas não resistiu a um copo de cerveja oferecido por Bruno, que aguardava ansioso pelos jogadores pra iniciar a mesa. Logo em seguida, mas já no segundo copo, apareceu Neto, com um suco de laranja. Essa seria a sua bebida. E foi assim que se deu o início do Póker® daquela noite, 21h30 passada, 3 jogadores à mesa, pingos de R$0,20, míseras fichas verdes, apostas beirando a monotonia. Mas poucas rodadas se passam e Peixoto avisa que chegará em 6 minutos. Preciso como um cirurgião, ele chega. E no mesmo instante que ele está nas escadas, subindo ao apartamento, Rodrigo liga perguntando se ainda há espaço na mesa. A noite começa a ficar interessante.


Peixoto adentra o apartamento. Sem bebidas. Mas suas mãos não estão vazias. O bom confrade nos brinda com petiscos. Sabores diversos. Faz a alegria daqueles três que estavam a comer pipoquinhas doces caramelizadas (praticamente um isopor com açúcar, mas alto padrão). Menos de uma dúzia de minutos depois chega Rodrigo. Só não chega com as duas mãos abanando porque a fratura na clavícula impede o movimento de um dos braços. Embaixo do outro há um volume. Mas não é bebida alguma. É uma bela pasta, marrom, de trabalho, novíssima. Viria a ser o prêmio surpresa da noite. Fernando desperta interesse imediato pela pasta. Diz que está realmente precisando de uma. Bruno lhe avisa: então faça por merecer. Ganhe as fichas, que você ganha a pasta.


Finalmente a mesa ganha volume. Agora são cinco jogadores, colocando de lado a outrora monotonia e dando mais intensidade à partida. Às 22h30 ocorre o primeiro aumento do pingo, que começa a delinear as grandes movimentações de fichas. É aproximadamente essa hora que chega o sexto integrante da noite. Schadeck adentra a porta do apartamento com uma caixa nas mãos e um sorriso estampado no rosto. Está feliz de ver seus amigos reunidos mais uma vez à mesa, e também esperançoso de poder lucrar novamente, como na semana anterior. De dentro da caixa ele retira duas preciosas garrafas de vinho, apresenta aos colegas e as pões sobre a mesa. Muitos se animam. Mas eis o inesperado: não havia um saca-rolhas na casa. Como não havia de ser diferente, o italiano Fernando prontamente se levanta. Mas não porque ele estava louco pra beber o vinho. Afinal ele não iria beber, pois iria acordar cedo no dia seguinte. E até mesmo porque ele já estava tomando cerveja. E só ia beber um copo. E isso ele insistiu em dizer, a cada copo, até o quinto servido. Mas ele era um italiano. E precisava honrar suas tradições e garantir que o vinho fosse aberto e degustado. E assim ele resolveu a problemática, com um parafuso. Como agradecimento, imediatamente Schadeck lhe ofereceu um copo (sim, um copo. Assim como não havia saca-rolha, não havia taça). Fernando não se conteve e aceitou, sem antes pôr em dúvida, pela sexta vez na noite, seu próprio caráter. As outras cinco foram a cada copo de cerveja que tomou. E não me pergunte quantos de vinho foram. Não sou desses que fica regulando quantas vezes cada um se serve na noite.


O jogo seguiu corriqueiro, com agora seis jogadores à mesa. Corriqueiro em termos de ritmo e percalços. Mas não no sentido de tradição. Rodrigo, se aproveitando da ausência do glorioso Dilson, surpreende os colegas distribuindo cinco cartas para cada um. O primeiro a se manifestar contra é seu irmão, Bruno, clamando que a Escondilsinha® é um privilégio do Dilson, por tradição e respeito como um dos fundadores da Confraria. Mas Digo, que raramente dá ouvidos a seu irmão, não se abala. E como outros não se manifestam contra, ele segue a distribuição de cartas. Na próxima rodada Rodrigo insiste na prática, mas ao trocar as cartas dos colegas ele comete uma manobra proibida, quase melando a rodada de apostas. Nesse momento o Poker Marshal aproveita pra reiterar que esses e outros motivos fazem da Escondilsinha® uma marca registrada, e refuta novamente a iniciativa falha de implementar a Escondiguinha. Mas, de fato, foi preciso uma ligação para sacramentar a questão. Perto das 23hs Dilson nos surpreende com um telefonema dizendo que está liberado de seu compromisso e ansioso por um lugar à mesa. Sempre há.



Logo ao chegar ele divulga a notícia: a Sorria, revista da qual ele é editor, foi agraciada com o prêmio Anatec (Associação Nacional de Editores de Publicações) de Mídia Segmentada 2009 na categoria Lançamento do Ano (revista). Congratulações à parte, ele libera logo a verba pro Buy in e senta à mesa. Agora são sete jogadores. Diferente do que se esperava e completamente diverso de como iniciara a noite, com aqueles três esperançosos confrades de antes cedo e seu jogo monótono. O ritmo é intenso, o pingo já inicia a subida da Brigadeiro, atinge R$1,00 e as apostas aumentam. E se faz verdade o velho ditado popular: os últimos serão os primeiros. Dilson inaugura a lista de rebuys da noite, enquanto profere a adaptação de um outro dito popular, mais comum às mesas de jogos: Sorte do patrão, azar no pôquer. E ainda envolvendo ditados e Dilson, ele se orgulha de ter decorado o velho ditado do avô de Fernando e ter comentado com colegas de trabalho. Mas ao tentar citar, se atrapalha: “Pio fácil… Como é mesmo? Pio facile meter in… É! Acho que eu não aprendi bem”! Mas Fernando lhe acode: Piú facile metterlo in culo che in testa alla gente. Dilson, resignado, diz: é mais difícil memorizar do que eu pensava. E Fernando enfatiza: por isso que te digo, piú facile metterlo in culo che in testa alla gente.


A noite seguiu e outros também tiveram que recorrer a rebuys. Quando é a vez de Peixoto, ele puxa sua carteira, discretamente, de um invólucro inusitado. Índio, que estava atento, lhe questiona: tu leva o dinheiro num saco de papel? Peixoto, um tanto quanto constrangido, se justifica: eu tinha uma mochila… mas vendi pra continuar jogando pôquer.



Já num embate de mesa repleta de fichas, onde muitos blefavam, ao fim levou o confrade que tinha apenas um Ás em mãos, e que por ventura tinha sido o último a mostrar o jogo. Até então a disputa estava entre Dilson e Bruno, cada um com um Rei como a carta mais alta. A segunda carta de Dilson era um 6, e ele pergunta a Bruno, por pura curiosidade, qual era o kicker dele. Bruno rechaça que não era bem um kicker enquanto apresenta um mísero 2. Afiado como um bisturi, Peixoto emenda de imediato: era um runner!


Chegamos à meia-noite, hora da primeira chamada. Aqueles que precisavam sair se apresentam. Fernando era quem possuía o maior valor em fichas no momento e vai embora levando seu lucro e sua carteira dentro da nova pasta conquistada com mérito. Rodrigo vai de carona. Enquanto Fernando se despede, sorridente, agradecendo o prêmio, alguns mais observadores notam uma reação adversa no outro lado da sala. Peixoto, com os olhos marejados, sentado no sofá, afundado atrás da mesa, olha discretamente para seu saco de papel onde está sua carteira. Abatido, lentamente levanta sua cabeça direcionando seu olhar para a bela pasta, estalando de nova, sob o braço de Fernando. Era quase possível ver dentro de sua cabeça seus pensamentos, seus sonhos de se exibir com uma pasta chique na redação da Editora onde trabalha… tudo se esvaindo como fichas que migram do centro da mesa para o lado oposto, em direção a um adversário, após um all-in mal sucedido.



E de all-in mal sucedido entende Bruno. Eu diria que seria até mesmo um mal-in. O seu último e derradeiro da noite não lhe desceu muito bem. Ficou um pouco atravessado na garganta. Ao ser aberto o flop Bruno decide apostar todas as suas fichas. A maioria dos colegas desiste, mas Dilson decide acompanhar. Ambos fazem o showdown. Com as cartas da mão mais as da mesa, Dilson fecha um par de Valetes. Bruno também soma suas cartas com as da mesa e possui um par de Ás. Bruno está contente com a vitória parcial, mas segue receoso. Peixoto, o glorioso dealer do momento profetiza: Eu já vi as cartas, e isso vai ser emocionante, porque eu já vi as cartas. Como assim já viu as cartas, reflete Bruno. Isso não soa bem. Mas antes que Bruno aprofunde seus pensamentos, Peixoto abre o turn, e a quarta carta é um 8. Bruno se emociona mais ainda. Com o seu Ás e o 8 que ele já tinha em mãos ele fecha dois pares. A alegria vai se consolidando. E eis que então Peixoto apresenta o river, a quinta e última carta, aquela que abre um rio de possibilidades. Um Valete. Dilson vibra. Um inacreditável Valete. Bruno desacredita. Dilson fechou uma trinca de valetes. Bruno se afundou no rio. A emoção agora é outra. Mudou a emoção dos dois jogadores. Vai ser emocionante, havia profetizado Peixoto. Como assim? Um turbilhão de pensamentos invade a cabeça de Bruno. Por que o dealer havia visto as cartas antes de virar? Isso pode? Tá na regras? Melou! A avalanche de pensamentos segue levando Bruno: Quem me garante que a quinta carta é a quinta carta? Ele queimou as cartas? Eu não vi! Ele não descartou as cartas. Melou! Definitivamente melou, era só o que passava na cabeça de Bruno. Peixoto queima as cartas sempre? Ou nunca queima? Ele não queimou dessa vez. E ele viu antes de virar. Se ele não visse que a quinta carta era um Valete ele queimaria? E se ele sempre queimasse, e visse que a carta a ser queimada era um Valete, ele viraria sem queimar? Como assim se ele visse? Ele pode ver as cartas antes de virar? Esse pau no cú ta roubando, surta Bruno. Eu vou matar esse merda!



Mas antes de qualquer ímpeto mais agressivo, Bruno contém seus pensamentos. Olha ao redor. Respira fundo. Percebe que está entre amigos. Reconhece que Peixoto não faria uma sacanagem destas. E também não queria desmerecer a vitória de seu colega Dilson. Se fosse o contrário, Bruno sabia que Dilson também seria um bom perdedor. Não teria nenhuma atitude contrária a isso. Apesar do fato não lhe cair bem, Bruno resigna-se. Aceita a derrota. Mas em protesto não realiza outro rebuy. Também já era tarde. Aproximadamente 1 hora. Seguiram na mesa Peixoto, Índio, Dilson e Neto, por mais uma hora. Ou quase isso.


Bruno deitou sua cabeça no travesseiro e, após refletir mais um pouco, dormiu com apenas uma certeza: se não era contra as regras o dealer olhar as cartas antes de virar, era, no mínimo, deselegante.


* Texto criado pelo confrade Bruno Cheuiche Vieira da Cunha

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